A delicada fenda do amor

Considerações de Lou Andreas-Salomé sobre o amor

Lou Andreas-Salomé nasceu na Rússia, no século XIX. Estudou filosofia e história da religião na Universidade de Zurique, iniciando sua trajetória intelectual e de relações com grandes nomes da cultura de sua época, como Nietzsche, Rilke, Paul Rée e Freud. Com o último, manteve longa correspondência, entre 1912 e 1936, considerando que recebeu dele um “acréscimo de algo novo às nossas crenças básicas”.

Em seu ensaio Reflexões sobre o problema do amor (Landy Editora, 2005), de 1900, ela propõe várias hipóteses em busca do entendimento da relação amorosa e da posição feminina nela. Em primeiro lugar, me surpreende e me agrada o modo como a escritora utiliza termos filosóficos arriscados e recobertos de camadas aparentemente metafísicas, sem parecer se incomodar ou justificá-los. E assim surgem ao longo do texto expressões como “alma humana”, “força vital”, “energia elementar”, “aspiração secreta”. Outra observação preliminar é quanto à indistinção entre amor e paixão que permeia suas ideias. Salomé parece querer escapar da armadilha Ocidental em distinguir alma – ou mente – e corpo ou, ao menos, nos apontar essa questão.

 

Salomé parece querer escapar da armadilha Ocidental
em distinguir alma – ou mente – e corpo
ou, ao menos, nos apontar essa questão.

 

Proponho traçar alguns caminhos da sua série de considerações sobre o amor que, como o título indica, se constitui como um problema. O primeiro deles seria o tipo de laço que se estabelece entre os amantes, um esquecimento de si (num devotar-se pleno ao outro) ou um individualismo forte (fechando-se ao que é exterior e privilegiando o próprio eu). Os dois expressam o egoísmo “natural” da humanidade, cuja forma de conflito se modifica ao longo da história, mas sempre aparece. Chama a essas configurações de amor ilimitado e amor-próprio, como dois modos da expressão amorosa.

lou andreas salome tempo de morangos

O terceiro tipo seria o amor erótico. Apesar de apresentá-lo depois, didaticamente, este aparenta ser o primordial, quando os dois anteriores, o esquecimento de si e o individualismo forte, ainda estão indiferenciados, contraditórios e misturados. O amor dos sexos, para ela, é manifestação de eterna luta e hostilidade.

No amor, são dois mundos estranhos que se encontram, dois contrários; dois mundos entre os quais não existe e nunca poderão existir essas pontes lançadas entre nós, nem aquilo que aparentemente nos está ligando; algo semelhante, familiar e que nos dá a sensação de caminharmos para nós mesmos e em nossos próprios domínios quando dele nos aproximamos”, ela diz.

 

No amor, são dois mundos estranhos
que se encontram, dois contrários.

 

A contradição apontada por Salomé é a de que no instante mesmo em que se esquece de si lançando-se ao outro, o movimento que se faz é o de voltar-se para o eu. Ou seja, encontramos a nós mesmos no outro. Por uma delicada fenda, diz ela, saímos de nós para, num looping, retornar ao próprio eu. A duração do encontro é o de um raspão passageiro com o sabor de uma embriaguez eterna.

A outra camada de sentido que ela constrói para a relação amorosa é de que o erotismo é um mundo próprio e não um estágio anterior a uma relação fraterna. O clássico dos debates cotidianos de que primeiro emerge a paixão e, com o tempo, o sentimento arrebatador se transforma em amor calmo é para Salomé um ardil para situar o corpo em posição de diferenciação e abaixo do espiritual. Ela alerta para o perigo de se falsificar moralmente a natureza sexual. O amor é corporal. No amor, o erotismo está presente. E a autora cita Chamfort, “o amor não é mais do que a fricção de duas epidermes”. O que ela distingue é o puro apetite sexual, em que a embriaguez amorosa não aparece. Também no amor-jogo não há erotismo, mas passatempos da imaginação e dos sentidos.

lou andreas salome tempo de morangos

“Porque o amor é tanto o que vagueia em nós de mais físico como aquilo que temos de mais espiritual e de mais desencarnado, pelo menos na aparência; prende-se completamente ao corpo, mas integra completamente nele um símbolo, uma imagem de totalidade do ser humano e de tudo o que entra em nós pelas portas dos sentidos e que se insinua no segredo de nossa alma, a fim de despertá-la”, afirma Salomé.

 

Por uma delicada fenda, diz ela,
saímos de nós para, num looping,
retornar ao próprio eu.

 

Quanto ao feminino, a autora não deixa de citar mulheres que se dedicaram exageradamente a seu companheiro, reduzindo-se a suas metades. Colocando-se contrária ao discurso de Aristófanes n’O Banquete de Platão, em que todos estariam condenados a encontrar sua outra parte, e sendo o amor representante daquilo que nos tornaria novamente completos, ela considera que é preciso manter-se inteiro, quer dizer, um ser vigoroso e não parasitário, para que se possa permanecer como objeto de amor. Aquele que se submete a inúmeras concessões, adaptando-se ao outro, deixará de ser capaz de simbolizar a “força vital” da qual o amor é o mensageiro.

 

O amor é corporal.
No amor, o erotismo está presente.

 

Ao final, conclui como lei do amor o paradoxo de ser estranho e, ao mesmo tempo, próximo. Aquele que amamos é sempre inacessível. Toca-se de leve o outro.

 

Josiane Orvatich

 

Trailer do filme LOU (2017), de Cordula Kablitz-Post: