A história de Alberta Simone

Alberta Simone era a menina que derretia.

Seus sentimentos eram tão fortes e brilhantes e coloridos que surgiam feito uma intensa cascata em seu peito, comprimiam seu coração, ofegavam sua respiração, apertavam seus olhos, franziam sua testa e deixavam suas pernas moles.

Moles, tão moles – tudo nela tão feito de água – que aos poucos derretia tornando-se uma poça de água com sabão, no chão.

 

 

Devagar se acalmava, se concentrava, torcia pra que ninguém pisasse nela até que seu corpo novamente ia tomando forma, ganhando matéria e voltando a ser uma menina. Com boca, nariz, pescoço, barriga e saia xadrez.

Tinha receio de brincar com os amigos porque quase sempre terminava como uma poça de água com sabão, no chão. Muitas vezes, antes mesmo de encontrá-los, já derretia de medo.

 

 

Eram muitos os sentimentos que derretiam Alberta Simone. Derretia de amor, de raiva, de felicidade, de vontade de comer bolo.

De saudade. De uma história. De uma briga. De um adeus, de um olá. De uma música. De uma foto. De uma dança ou risada. De uma estrela, do céu, da chuva. De uma brincadeira que deu certo. De uma brincadeira que deu errado. De uma surpresa, de uma certeza. De um espanto. De um engano. De uma alegria. De uma bexiga e um brigadeiro. De pessoas, muitas pessoas, tantas pessoas e seus mundos cheios de segredos. De vergonha. A vergonha de derreter.

Alberta Simone desejou não ter mais sentimentos. Assim, teria sempre um corpo inteiro e firme. Como a terra firme em que descem os piratas e exploradores depois de longa jornada no mar. Terra firme, certezas e alívios. Descanso.

Brincava cada vez menos com os amigos para evitar as gargalhadas, as perguntas, os olhares curiosos, as tentativas de dar pisões nela.

 

 

Um dia, derreteu. De ansiedade. O bolo de limão com nozes, preparado pela mãe, estava ficando pronto. Amava esse bolo mais que todos os outros. Fugiu pro jardim pra tentar esquecer, mas não adiantou. O cheiro e a vontade a perseguiram até lá. E derreteu. Ficou feito poça de água com sabão, no chão.

 

 

E foi chegando perto dela um passarinho, muito pequenininho, um passarinho rajado de preto e cinza. E começou a pisar nela. A água espirrava fininha, pois era leve o passarinho, e fazia cócegas em Alberta Simone, soltando bolhas de sabão. O passarinho corria atrás das bolhas e dançava na água-menina, que ria-e-ria, e-se-divertia-e-se-divertia. Durou tanto tempo aquela festa que Alberta Simone nem se lembrou e nem se importou em não estar no estado firme de seu corpo.

 

 

Quando o passarinho se foi e o corpo de menina com boca, nariz, pescoço, barriga e saia xadrez voltou, ela sentia-se leve e saltitante como jamais havia se sentido. Tudo era brisa suave e fresca.

Comeu o bolo imaginando que nos dias seguintes brincaria em seu estado de água.

E assim se passaram os meses. Brincando e rindo e suave e brisa e cada vez mais água.

 

 

Até que o período de aulas acabou e Alberta Simone viajou para a praia. Deslumbrou-se com o mar de uma maneira nova. As ondas, o balanço, a cor, o movimento. A dança.

Numa tarde, explodiu de emoção e derreteu no mar, transformando-se numa linda sereia, de cauda longa, corpo mole e pleno dos mais variados e fortes e brilhantes e coloridos sentimentos.

E essa é a história de como Alberta Simone, a menina que derretia, descobriu quem ela era.

 

 

Josiane Orvatich