A vida e seu contrário

A aventura cotidiana de Zazie

O romance Zazie no metrô, do francês Raymond Queneau, publicado em 1959, já pelo título contém uma antífrase, pois Zazie jamais pegará o metrô.

Com essa informação é possível identificar duas características da narrativa, a subversão da jornada heroica (Zazie é uma garota comum, com um desejo comum) e a duplicidade que alude ao seu oposto.

 

Zazie no metrô. Foto: Reprodução.

 

Brevemente, a trama nos conta a história de Zazie, uma garota de 12 anos, do interior da França, que chega a Paris e quer andar de metrô. Este, porém, está em greve.

As subversões da história são muitas, a começar pela linguagem empregada pelo autor. Queneau traz figuras de dicção (keke tákontecendo aki, kekefoikevocêdiss, milhor) que, segundo Roland Barthes – em texto publicado no ano de lançamento do romance e reproduzido no posfácio à edição brasileira da Cosac Naify –, são muito mais que transcrições fonéticas, são uma “invasão da muralha sagrada por excelência”: a ortografia, a escrita, o texto literário.

 

“O romance Zazie no metrô
já pelo título contém uma antífrase,
pois Zazie jamais pegará o metrô.”

 

Na contramão dessa oralização da escrita – que durante um certo período foi projeto de Queneau por um neofrancês –, há citações em outras línguas, do clássico latim ao alemão, uso de palavras pouco corriqueiras, além de uma epígrafe em letras gregas, com o dizer de Aristóteles: “o poeta fabricou e destruiu”. Desse modo, ele faz conviver o popular e o erudito, dando aos dois o mesmo lugar e estatuto na escrita e na literatura.

Numa provocação que anuncia a coexistência dessas formas aparentemente incompatíveis, logo após a citação do filósofo grego, o autor abre o romance com um dondekevemtantofedô. A própria passagem de Aristóteles enaltece e arruína o saber clássico, nesse jogo proposto por Queneau.

Como não lembrar da proposição de Lacan de que há escritura na fala (e, portanto, no dizer analítico)? Ou da arquiescritura de Derrida, em que toda linguagem é uma espécie de escrita? E, ainda, do próprio Barthes com O grau zero da escritura?

 

“Desse modo, ele faz conviver o popular e o erudito,
dando aos dois o mesmo lugar
e estatuto na escrita e na literatura.”

 

Queneau irá provocar o tema do falso saber e da falsa erudição, diluindo-os no popular dentro do romance e, de quebra, parodiando Shakespeare ao anunciar que a narrativa é “pouco mais que um delírio batido à máquina por um romancista idiota”. Sabendo que toca no mais canônicos dos literatos, acrescenta “ai! Desculpa”.

Essas subversões, que Barthes chamará de duplicidades, aparecem ainda na desconstrução de Paris, da infância, da sexualidade, da humanidade e da privacidade.

 

Foto: Josiane Orvatich

 

Paris é apresentada pelo tio de Zazie, Gabriel, que já no primeiro passeio com a garota, de táxi, não sabe identificar os lugares turísticos por excelência: confunde o Pantheón, a Gare de Lyon, os Invalides e Sainte-Chapelle numa desapresentação  da cidade para a garota. Um grupo de turistas que irá aparecer na trama, em seguida, confunde Gabriel com um guia turístico, colocando a desinformação também no lugar simbólico do estrangeiro.

Adiante, o personagem – agora sim – do guia turístico irá igualmente confundir os monumentos da cidade. Isso soma-se ao desinteresse completo de Zazie por Paris. Seu desejo é o de andar de metrô, o que faria em qualquer outra grande cidade – interesse justamente pela modernidade que incomodou Baudelaire, poeta que tanto retratou a capital francesa.

 

“Queneau parodia Shakespeare ao anunciar que a narrativa é
‘pouco mais que um delírio batido à máquina por um romancista idiota’.
Sabendo que toca no mais canônicos dos literatos, acrescenta ‘ai! Desculpa’.”

 

A infância é desconstruída no pouco lirismo de Zazie, uma garota que diz palavrões o tempo todo, que narra ter visto o pai ser morto a machadadas pela mãe, com bastante naturalidade. O tom absurdo dos acontecimentos e dos diálogos – o livro é, em maior parte, escrito em diálogos – aponta para a desordem, em que os acontecimentos não podem ser previstos. A dúvida em relação à história contada por Zazie sobre o pai pode ser dissolvida, na construção lógica da narrativa, pela morte também improvável de uma personagem, a viúva Mouaque, quase no fim do livro.

Porém, a dúvida retorna a cada novo acontecimento, como na duplicidade em relação à sexualidade. Entre atos e dizeres desencontrados, Gabriel, tio já mencionado, aparece como uma dançarina de boate. Questionado por Zazie sobre o que seria ser homossexual, Gabriel sempre responde que é casado com Marceline. Esta, porém, ao final, se revela como Marcel.

Seguindo nos jogos de duplicidade, a humanidade é colocada à prova pela presença do papagaio Laverdure que diz todo o tempo, “falar, falar, você só sabe fazer isso”, remetendo-se a todos os personagens que falam desenfreadamente. O animal troca de lugar com seu dono, Turandot, num momento de fuga em que este não quer ser reconhecido e, portanto, entra na gaiola do bicho enquanto este o carrega.

 

Foto: Josiane Orvatich

 

Para finalizar, a privacidade também é colocada em questão nas cenas em que uma multidão se forma em torno de outros personagens avaliando e julgando suas ações numa grande praça pública pré-redes sociais. Quando Zazie é falsamente acusada de roubar uma calça jeans, por exemplo, não faltam observações sobre a garota não ter tido educação ou ter passado fome, o que justificaria sua delinquência.

Toda essa subversão e duplicidade de papéis será lembrada por Barthes como a “beleza das ruínas”, uma destruição ambígua que aniquila a forma, mas faz emergir algo novo – por isso não há sarcasmo, Queneau é cúmplice dessa literatura ameaçada. Ameaçada porque descontrói a heroína e suas ações; porque os acontecimentos são, como propõe o surrealista André Breton, jogos de acaso; e sobretudo pela metalinguagem que faz o romance não só narrar uma trama, mas voltar-se sobre si mesmo – o que recoloca a literatura em um lugar de deslocamento, no lugar da sua própria crítica.

 

“A privacidade também é colocada em questão nas cenas
em que uma multidão se forma em torno de
outros personagens avaliando e julgando suas ações
numa grande praça pública pré-redes sociais.”

 

E tão interessante quanto o romance, o filme de Louis Malle (1960) transpõe para a técnica de narrativa visual várias questões abertas pelo livro, como a geografia (quase) imaginária de Paris, aquela que Queneau considerou ser apenas um devaneio e não uma cidade real.

Josiane Orvatich