TEMPO DE MORANGOS

 

Quando é, afinal, tempo de morangos?

Qualquer momento ou instante de respiração, ofegante ou pausada, em que nos sentimos vivos, qualquer tempo anterior à nossa partida.

Em A hora da estrela, Clarice Lispector encerra a narrativa com a descoberta da própria morte.

 

“E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa.
Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre.
Mas – mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.”

 

É um tempo em aberto, afirmativo: o sim dos sonhos, devaneios, desejos, quando tudo ainda está por vir, nada foi determinado ou definido. Tempo do enigma, pois o sentido só apontaria na direção de seu fracasso. O tempo-esfinge nos mantém vivos, nos conserva vastos e ilimitados, possibilita novas significações. É o oposto do tempo-estátua, quando a existência se congela e se restringe, indica um caminho único e fechado.

Um tempo que se vai e que retorna na próxima estação, no próximo encontro, na próxima conversa, no próximo livro, no próximo projeto. Ciclos transitórios, períodos, etapas, épocas, fases, temporadas, momentos. Um tanto fica, outro tanto vai.

Freud, num texto de 1916, A transitoriedade, faz um elogio do movimento, do ir e vir do tempo, enquanto passeia com o poeta romântico Rainer Maria Rilke e com a escritora Lou Andreas-Salomé. O poeta, inconformado com o fim das coisas, lamenta que tudo o que hoje considera belo um dia sumirá da paisagem. Freud não compreende. Vê na finitude o motivo da beleza e na precariedade o valor dos objetos, por sua raridade e fugacidade. O instante ganha status do que é único e encarna a possibilidade do que é novo.

É neste tempo de cifras e mistérios como oportunidade de ressignificações que pretendo articular reflexões trazidas pela arte e pela psicanálise. Questões transitórias, mas atuais, nossas, que dizem respeito à condição humana e são expressas por artistas, pensadores e psicanalistas, me levando a construir ideias sobre nosso tempo e sendo eu mesma construída por elas.

Josiane Orvatich
16 de maio de 2017