As investidas da sua ausência

Reflexões sobre um processo de luto

Milena Busquets, romancista espanhola, narra em Isso também vai passar (2014) a história de Blanca, personagem de quarenta anos que acaba de vivenciar a morte da mãe. Divorciada duas vezes e com dois filhos, Blanca retira-se para a pequena vila de Cadaqués, durante uma estação de calor intenso, tendo se passado trinta e quatro dias do falecimento de sua mãe. Com ela vão para a vila os dois ex-maridos e duas amigas. Seu amante também está nas redondezas. Em meio a uma tristeza profunda e constante que se foi depositando sobre ela, Blanca entrega-se ao sexo de maneira feroz, tal como compara que a morte se apresentou a ela, violenta.

 

Foto: Josiane Orvatich

 

Em certo momento, a personagem afirma que “nem todo o amor dos meus amigos e dos meus filhos é suficiente para eu resistir à investida da sua ausência, preciso estar bem agarrada a um cara para não sair voando pelos ares”.

Blanca gravita em torno de algumas questões durante seu processo de luto. As sensações sobre a morte da mãe, a maneira como ela se vê nesse momento da vida, a relação com o corpo, a expressão de sua sexualidade, as lembranças da infância e a concepção da passagem à idade adulta.

A personagem rememora a relação com outras mortes e conta que quando visitou a filha de sua babá, Marisa, que acabara de morrer, encontrou-a vestindo um dos robes floridos da mãe. “Eu o reconheci na hora e me pareceu lógico que ela o vestisse, e também me pareceu premonitório e terrível o abraço da morte”. A ambivalência do sentimento ao vê-la vestida de um morto, entre natural e estranho, repetiu-se em outro caso, quando uma colega de escola vestiu uma meia amarela do pai recém falecido.

A metáfora do vestir a ausência do morto é o vestir sua imagem que ainda assombra, ronda, invade a vida, vestir-se de tristeza. Blanca não consegue desfazer-se de um blazer da mãe, nem sequer levá-lo à tinturaria. Somente ao final do romance, na última frase do texto, afirma tê-lo levado, após toda a travessia da narrativa. Jogar fora ou guardar os objetos é uma decisão sobre a que distância ela quer viver da mãe, ela diz.

Blanca se apresenta, no início do romance, com quarenta anos e impossibilitada de se ver com esta idade. Via-se com vinte, com trinta e sessenta anos, mas com quarenta ou cinquenta, não. “Há dias não me olho no espelho, ou me olho sem me ver, só mesmo para me arrumar. (…) Meu espelho, mon semblable, mon frère, se empenha em me lembrar que a festa acabou”.

 

“A metáfora do vestir a ausência do morto
é o vestir sua imagem que ainda assombra,
ronda, invade a vida, vestir-se de tristeza.”

 

Ela se sente uma fraude como adulta, permanece na infância e, assim, considera-se como uma órfã sem pai, nem mãe, e isso não a agrada. Considera que perdeu os lugares da infância e da juventude, mas não realizou a passagem para o mundo adulto, ou seja, o espelho e a idade mostram que está envelhecendo, mas desejaria estar “no pátio da escola pulando corda e olhando as nuvens”.

Merleau-Ponty, em O olho e o espírito, dirá que “todos os homens que têm olhos foram algum dia testemunhas”. Blanca está imersa na ambiguidade do “só se vê o que se olha”, pois ela evita o espelho e nessa recusa acredita estar velha como a mãe e deseja ser criança como os filhos, porém a si mesma não enxerga.

A experiência de se relacionar com o próprio corpo permeia toda a narrativa de Blanca, desde observar os corpos em grande número na praia, bronzeados, cansados do sol, até mergulhar no mar, sentir a água como amante, até sua autoimagem de corpo envelhecendo, como paraíso perdido, e sua satisfação sexual, ancorada na ideia dos poderes curativos do sexo, capaz de dissipar a dor, ainda que em ilusão momentânea. “Desde que você morreu, meu único alívio é o contato físico, por mais fugaz, casual ou leve que seja”.

Blanca descreve seu corpo nu como um “espectro cinzento de olhos vidrados” e desabafa:

“Estou louca pelo meu corpo assimétrico, molengo, ossudo, imperfeito, desproporcional, eu o mimo, o manuseio, dou tudo que ele me pede, sigo-o por toda parte, obedeço-lhe docilmente, nunca o contradigo. É o oposto de um templo. Tentei, tento, sem muito sucesso, que a minha cabeça seja um templo, mas o corpo deveria ser sempre um parque de diversões”.

 

Foto: Josiane Orvatich

 

Não é um corpo diante do qual estamos, mas um corpo que somos. Blanca só pode existir em sua experiência corporal.

A personagem afirma que o sexo é o tempo presente, assim como a morte da mãe. Não encara perspectiva de futuro ou de possibilidades, o amanhã não existe e Blanca se apoia na solidez do hoje. Descreve o sexo como oposto da morte, como dissipador desta, “seu efeito fulminante reduz tudo a destroços”. E continua: “à medida que a doença ia se tornando mais feroz e implacável com você, minhas relações sexuais também se tornavam mais ferozes e implacáveis, como se em todas as camas do mundo só uma batalha estivesse sendo travada: a sua”. Em certo momento da narrativa ela se questiona se tudo seria um substituto do sexo: “a comida, o dinheiro, o mar, o poder”.

Ao envelhecer corremos o risco de as pessoas já não se interessarem pelo que dizemos, as portas se trancarem, o olhar tornar-se cansado, as possibilidades se fecharem antes dos olhos, pensa Blanca. “Acredito que há coisas que perdemos para sempre. Na verdade, acho que somos mais as coisas que perdemos do que as que temos”.

O amor, como a observação, nos torna dono das coisas, das cidades que visitamos, das histórias que vivemos, das pessoas, e podemos convocá-las pelas lembranças, diz um amigo de Blanca, para contradizer a perda a que ela se refere. A personagem não renega seus amores e feridas, mas não compreende a recordação como uma posse, e sim como reconhecimento de uma perda.

 

“Descreve o sexo como oposto da morte,
como dissipador desta,
‘seu efeito fulminante reduz tudo a destroços’”
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Ao final, a personagem afirma respirar melhor e já não ter pesadelos. Um dia sabe que conseguirá falar da mãe com seus filhos. As fotos ainda não pode ver, pois a mãe não é uma lembrança, é presença. Na última cena, antes do epílogo, Blanca, após uma noite em que bebeu e passou acordada em frente ao cemitério, vê a mãe que sorri e diz a ela: isso também vai passar. A cena é fantasmagórica, com estilo fantástico pela descrição comum aos romances góticos – o cemitério, o gato, a luz diáfana e a morta que surge.

Esta imagem surge como reordenadora do mundo para Blanca que parece agora seguir em frente, sentindo o “pó de pirlimpimpim” na cabeça, o pó que simbolicamente animava mãe e filha. O blazer da mãe que foi à tinturaria e voltará “como novo” é o signo da transformação de um outro modo de existir que está, aos poucos, sendo construído por Blanca.

Josiane Orvatich