Casa velha

O antigo pomar já não inspirava o verão. As frutas, antes carnudas e abundantes, vívidas como o sol, agora mal davam pra comida de passarinho. O velho pai, uma tartaruga centenária de casco desbotado e quase sem andar, era o espelho das suas árvores. Eram vida de ontem. A criança que ali zanzava não sabia da escassez ao seu redor. Alguns limões, poucas goiabas podres e a promessa de duas mangas verdes eram festa pro menino da cidade.

O terreno era um amalgamado de madeiras ocas escorando troncos pálidos, paredes úmidas e pretejadas ameaçando desabar, folhas secas do antigo kiwizeiro, rodelas de grama queimada, antigos criados mudos enferrujados apoiando vasos que já abrigaram plantas, sobras de telha juntando insetos, vassouras sem cabo, potes de óleo velho, tijolos que não couberam na construção, um varal de cordas esgarçadas, um fio elétrico destruído pela planta trepadeira e um dedetizador entupido. Só a mangueira d’água alaranjada despontava solene, feito cobra do início dos tempos, e o alecrim folhudo persistia com seu cheiro de limão e pimenta.

Eu estava hipnotizada pela solidão do tanque onde tomava banho em dia quente, agora cheio de terra e hortelã, e pela lembrança de pirralha que ganhava brindes pra não atrapalhar o namoro da irmã. Silêncio de exílio vez ou outra quebrado pelo grito da criança empolgada com o pé sujo ou pela luz amarelo-ouro que se acendeu automaticamente ao cair da noite, luz de espantar mosquito, dizia o fantasma da mãe já morta, enquanto entrelaçava seu crochê. O barulhinho do pisotear infantil na grama forçando esquecer que pra mim tudo era passado. Aquele garoto berrando o presente e eu ignorando o agitar dos restos como se não fossem vida. Como se a casa velha já não tivesse força ou fosse capaz de rebrotar meus dias felizes. Porque era só isso. Era eu quem tinha perdido a felicidade de menina. Mas a criança insistia e se divertia, plena de pulos, ocupando seu lugar na marcha daquela família.

 

Josiane Orvatich