Cicatriz

A minha é de um rosa suave. Rosa antigo. De um antigo tão recente quanto os quatro anos que se passaram desde que meu filho passou por ali. Eu senti um movimento de onda, tsunami da alma, ele saindo. Era ele partindo eu parindo. Eram mil pássaros voando no escuro.

A ruptura escancarada em seco.

Eu sentia as mãos no meu rasgo, eram mãos e filho e vísceras e sangue e era a mão na minha mão dizendo estarei sempre com você. Então ele surgiu, rosa como a cicatriz hoje misturada entre os pelos, fina nem tão fina, baixa bem baixa, bonita de se acariciar no chuveiro. Um risco róseo no azul quando o sol se põe. Nácar em fundo de concha, berço de Afrodite.

Uma amiga me disse: fotografe. Faça registros. Não tinha tido a coragem. Não sabia que o íntimo podia ser partilhado. Não sabia da arte de me fazer despida. Mas agora fotografo com palavras.

 

Josiane Orvatich