Dostoiévski e o inconsciente

Escritos do subsolo

Se o romance nasce com a fórmula da verossimilhança, ou seja, nasce realista com Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe, sob o anúncio no prefácio de que se trata de um relato verídico, com esse gesto inaugura uma tradição de sustentar a realidade da narrativa, a existência dos personagens e o convencimento do público de que vale a pena ler o que está escrito, pois trata-se de uma obra verdadeira.

Fiódor Dostoiévski, mais de um século depois, na novela Memórias do subsolo (1864), faz o movimento oposto e declara, logo de início: “tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários”.

O que houve, no decorrer destes cento e quarenta e cinco anos, que levou à diferença do gesto narrativo?

Essa é a questão que eu gostaria de percorrer, antes de chegar ao homem do subsolo, homem algumas vezes considerado o homem do inconsciente freudiano.

 

Foto: Josiane Orvatich

 

No final do século XVIII, pós Revolução Francesa, é possível identificar dois caminhos distintos na literatura. De um lado, o romance de caráter realista, de outro, a narrativa gótica que irá desembocar na literatura romântica e fantástica.

O romance inaugurado na ilha de Robinson Crusoé, juntamente com o sujeito moderno, individualista, e com a cultura burguesa da leitura na sala de estar, realiza o movimento da literatura séria, cuja baliza inicial é fundamentar seu relato na verdade cotidiana, nos fatos ordinários e possíveis do dia a dia.

 

“O romance nasce com a fórmula da verossimilhança,
ou seja, nasce realista com Robinson Crusoé.”

 

O jornalismo, profissão de Defoe, empresta ao ficcional a respeitabilidade necessária para a saída da condição marginal da escrita literária. Ainda que, aparentemente e no senso comum de suas releituras, essa história seja mais uma narrativa de aventuras, ela é a ficção que funda o romance como aquele no qual “as atividades cotidianas de uma pessoa comum constituem o centro das atenções”, como diz Ian Watt em A ascensão do romance.

Esta tradição prepara o solo em que brota o romance Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, a marcar o realismo literário, como movimento que se formaliza e chega ao Brasil, sobretudo representado por Machado de Assis.

De outro lado, na contramão da seriedade verossímil da mimesis realista, o romance gótico se apresenta pela mise en scène do sobrenatural, com O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole. Os clássicos elementos fantasmagóricos que ainda se veem nos desenhos de Scooby-Doo ou em histórias de terror – o castelo mal-assombrado, ruínas, labirintos, o retrato que pisca, barulho de correntes nos corredores, cortinas esvoaçantes, a armadura que se mexe, alçapões, manuscritos antigos, temporais, florestas, lugares secretos, penumbras, portas que batem sem ninguém à vista – vieram de um repertório iniciado nesta narrativa de Walpole.

De Frankesntein (Mary Shelley, 1831) a O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde, 1890), de O médico e o monstro (Robert Louis Stevenson, 1886) a A outra volta do parafuso (Henry James, 1898), passando pelos romances góticos de Ann Radcliffe até a literatura contemporânea de Jorge Luis Borges, a lógica das ações passa a ser outra que não a de acontecimentos diários de uma pessoa comum.

 

“De outro lado, na contramão da seriedade verossímil da mimesis realista,
o romance gótico se apresenta pela mise en scène do sobrenatural.”

 

A lógica do fantasma é a que representa a dúvida quanto à razão iluminista. Há algo que a racionalidade da sala de estar não pode explicar. Esse elemento sinistro passa a exigir um lugar simbólico, uma máscara ficcional que possa retratá-lo. O romantismo nasce dessa incerteza pós Século das Luzes e de uma interpretação que considera derrotados os princípios da Revolução Francesa que garantem, pela via da razão, a nova ordem social.

É neste contexto romântico que escreve Sigmund Freud. Distanciando-se da ideia da irracionalidade grega, cuja definição poderia ser a da permanência da animalidade no homem e por isso um mal a ser evitado, os pensadores do período romântico, como Schelling, Fichte e Schopenhauer, apostam na ideia de inconsciente para ancorar uma leitura possível sobre esse elemento sinistro da humanidade. Há algo que está soterrado – metáfora da arqueologia, como descreve Freud em O delírio e os sonhos na Gradiva de W. Jensen –, há algo que permanece no subsolo da consciência.

 

Foto: Josiane Orvatich

 

Dostoiévski, considerado tradicionalmente um escritor realista, tem essa denominação questionada e desdobrada em outras definições formais, como realismo fantástico e realismo romântico, como aponta Andrea de Barros em sua comunicação na Abralic, 2015, O espelho às avessas: realismo em Dostoiévski e Machado de Assis. Se, de um lado, o autor publica o romance social, Gente pobre (1846), em acordo com as bases realistas, de outro, o romance O duplo, do mesmo ano, flerta diretamente com raízes românticas.

Em Memórias do subsolo, como em outros textos filiados à extensão romântica do seu realismo particular, Dostoiévski nos deixa o paradigma do homem do subsolo, do homem cindido, exilado e em contradição consigo mesmo, e nos indica a “importância do fantástico, para se alcançar o real”, como comenta o tradutor Boris Schnaiderman.

A indicação do prefácio, de que se trata de uma ficção, lança a fantasia e o fantasma ao estatuto do que deve ser ouvido, tal qual Freud recomendou, que se escute a narrativa do paciente, seja em sua invenção, sonho, ilusão, delírio ou capricho. Não se trata, portanto, de elevar o real à categoria de objeto narrativo, mas de eleger a ficção como forma possível de representar o real.

 

“A lógica do fantasma é a que representa
a dúvida quanto à razão iluminista.”

 

O homem do subsolo é “naturalmente, imaginário”, e o que Dostoiévski faz é dar voz a esse homem, dar lugar a esse inconsciente e a essa fantasia, a esses elementos contraditórios que nele “fervilham” e que não se limitam ao campo da consciência “hipertrofiada”, mas que apontam para o desejo, como lemos em suas palavras:

“Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todo o coçar-se. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não apenas a extração de uma raiz quadrada.”

Josiane Orvatich