Emília embaixo da pia

Emília era uma menina doce, de pele rosada, corpo magrinho e cabelos verdes. Seus cabelos verdes eram enrolados, bem enrolados e compridos, bem compridos.

Usava um anel de pedra única, alaranjada, no dedo indicador.

Gostava de brincar de bambolê, amarelinha, peão e mais do que tudo, de esconde-esconde.

 

 

Saía gritando pela casa, para a mãe ouvir, um grito cantarolado: você não me acha, você não me acha… E metia-se escondida.

Dentro do guarda-roupa ficou por quase duas horas. Deu fome, saiu.

Atrás do sofá ficou uma tarde toda. Era hora do seu desenho favorito, saiu.

No jardim, ao lado da roseira, ficou por alguns minutos. Choveu, saiu.

No banheiro, por horas intermináveis. Enjoou, saiu.

 

 

No meio da estante de livros, por um tempo que não se lembra. Dormiu, saiu.

Na lateral grossa da moldura do espelho, esperou e esperou. Cansada, saiu.

Embaixo da pia, contou as gotas que caíam, até o sol sumir. Na escuridão, não saiu.

 

 

Desta vez, decidiu que a mãe teria que encontrá-la. Mas a mãe nem procurava.

Emília ouvia a mãe passando por perto dos seus esconderijos e então tossia, movia os pés, arranhava um móvel e outros mil e um barulhos que fossem pistas. Mas a mãe nem ouvia, nem procurava.

Emília ficou um dia todo contando as gotas que caíam embaixo da pia, dois dias, três dias e então deu-se conta de que não teve fome, nem vontade de ver seu desenho favorito, nem sono, nem cansaço.

Emília tinha ficado invisível.

 

 

Correu até o espelho de moldura grossa e nada. Nenhum reflexo. Nenhum fio de cabelo verde enrolado e comprido. Nenhum sinal da pedra alaranjada do seu anel.

A menina então foi para o jardim e subiu numa árvore. Quem sabe ficando ali, por um tempo, voltasse a aparecer.

Deitou num dos galhos, fechou os olhos e sentiu o vento forte. Ah!, suspirou, mesmo invisível podia sentir seus cabelos, seus pés, suas mãos, seu corpo todo. Inclusive a barriga: olhou rapidamente e viu que um grande pássaro vermelho estava pisando nela.

Os olhos de pássaro do pássaro eram também vermelhos e olhavam fixos pra ela.

 

 

Emília ficou assustada, mas não podia mover-se. Seu corpo era agora um galho de árvore e seus cabelos as folhas ao vento. Confusa, teve uma dúvida: não sabia se assim estava escondida pra sempre ou se assim era encontrada pela primeira vez!

Aos poucos, olhada tão olhada pelos olhos do pássaro, deixou de ser galho e voltou a ter pele rosada, corpo magrinho e cabelos verdes.

 

 

Pulou da árvore e voltou correndo pra casa. Lá, encontrou a mãe chorando com um pedaço de fita vermelha nas mãos. Quando viu Emília, encheu-se de um sorriso, arrumou seu cabelo com um laço e nunca mais tirou os olhos dela.

 

Josiane Orvatich