Homens de areia

O esfacelamento do eu individual

O Renascimento, cujo período abrangeu os séculos XV e XVI, marcou o despertar de um olhar mais atento do homem sobre o homem, fazendo surgir a livre personalidade subjetiva e intransferível. Três personagens são icônicos desse momento histórico, segundo Ian Watt em Mitos do individualismo moderno: Fausto, Dom Juan e Dom Quixote.

Apesar de suas disparidades, encontramos neles a atitude ego contra mundum, de modo a não serem afetados por exterioridade de nenhuma ordem, sejam laços de família, amizade ou local de origem. Obstinados pelo isolamento, tornam-se imagens caras do novo homem moderno, dotados de força suficiente para afirmar, contra todos, a sua particularidade e a sua humanidade. Entretanto, todo esse sentimento de supremacia já vem embutido de certa sensação de fracasso. Esse novo homem renascentista que nasce, relembrando Foucault em As palavras e as coisas, já demonstra sinais de um fim próximo, cuja imagem de desaparecimento é “na orla do mar, um rosto de areia”.

 

Foto: Murilo Wesolowicz

 

Selecionei dois personagens que trazem à tona a questão da derrocada da individualidade humana: Olímpia, personagem do conto O homem da areia, de E.T.A. Hoffmann, escrito em 1815, e Véronique, personagem do filme A dupla vida de Véronique, do diretor Krzysztof Kieslowski, de 1991. Ambos representam o enfraquecimento da singularidade humana diante do mundo moderno, carregado de significados ligados à instabilidade, transitoriedade e transformação.

Olímpia é um autômato e, ainda assim, desperta uma paixão avassaladora em Natanael que, perturbado ao descobrir que o objeto de seu amor é uma boneca inanimada, acaba por suicidar-se. Os autômatos já eram conhecidos no século XVII, mas se popularizaram durante o século XIX como atração popular. O conto desperta a desconfiança em relação ao que é o humano, recusando a base humanista da Renascença e retirando, desse modo, o privilégio do homem em relação a sua própria humanidade.

A indagação profunda acerca das fronteiras da humanidade, presente na atmosfera da época moderna, intensifica-se no conto de Hoffmann quando o mutismo de Olímpia torna-se irrelevante, anulando a diferença fundamental, para o pensamento clássico, de que a linguagem separaria o homem da máquina. Jean Baudrillard irá dizer dos simulacros que são o real sem origem. Olímpia produziu um efeito real de humanidade, portanto, o simulacro não é falso, mas uma subversão do real.

Em A dupla vida de Véronique é de outro modo que se dá o questionamento da individualidade. Inserida no contexto da modernidade que apaga as diferenças e dilui o homem nas multidões, Véronique encontra um duplo de si mesma, Weronika.

Na trama, Weronika, uma cantora lírica polonesa, vê Véronique entrando em um ônibus e fotografando um protesto na Praça de Cracóvia. A cena, sem espanto ou choque, é apenas a confirmação, para a própria personagem, do que já havia dito a seu pai: “tenho uma sensação estranha. Uma impressão de não estar só”.

Véronique, francesa, residente em Paris, também pressente que não está sozinha. Ela relaciona-se com um escritor, Alexandre Fabbri. Desde o nome, de origem italiana, que nos remete a fabbricare, tudo em torno do escritor suscita a questão do real e do simulacro, a começar por fabricar marionetes que utiliza em apresentações teatrais.

 

A dupla vida de Véronique. Foto: Reprodução

 

Entre simulação e representação, Fabbri constrói o pano de fundo da trama maior em que Véronique se vê atrelada: ao perguntar quem é ela, a musicista abre sua bolsa e despeja todo o conteúdo em cima da cama, onde o escritor encontra a fotografia de Weronika, até então incógnita.

Do mesmo modo, sem espanto, como antes reagira Weronika, Véronique tem apenas a confirmação do que já pressentia – ela não é apenas ela mesma. É também a sombra, o duplo, o simulacro. Como Olímpia, Véronique-Weronika é um outro desconhecido, um simulacro no sentido apresentado por Baudrillard, uma subversão do real.

Em O homem da areia temos o confronto com o duplo. Olímpia surge como um outro de Natanael, despertando a identificação por meio da paixão. Natanael perde o controle de si mesmo ao ser colocado à prova em relação a sua própria humanidade, e seu destino trágico é a loucura e a morte. A relação entre Natanael e seu duplo é ativa, de enfrentamento e choque.

 

“Como Olímpia, Véronique-Weronika é um outro desconhecido,
um simulacro no sentido apresentado por Baudrillard,
uma subversão do real.”

 

Já em A dupla vida de Véronique não há o confronto. Weronika e Véronique apresentam essa resignação ao tomarem conhecimento uma da outra. Ao conhecimento de Weronika, segue-se sua morte. De Véronique não sabemos, mas podemos prevê-la. Na cena final, o escritor Fabbri finaliza a marionete de Véronique, duas cópias, pois “desgastam-se demais nas apresentações”, e anuncia que inicia a escrita de sua história sobre duas mulheres idênticas que habitam lugares distantes. A simulação, aqui, ganha tons metalinguísticos. A obra fílmica tem seu enredo reproduzido por um de seus personagens.

A duplicação do real, em suas variadas formas, é um dos pontos centrais da modernidade. Essa duplicação, entretanto, não é mera representação submetida à autoridade do original, mas desvendamento de outras realidades, como o inconsciente de Freud e do romantismo alemão.

A não-reação de Véronique-Weronika é sintomática de um saber internalizado, mas não expresso – ou esquecido, recalcado. A loucura fulminante de Natanael é mais agressiva e menos apaziguadora.

O homem moderno tem a tarefa de pensar-se a partir de sua nova invenção de indivíduo, ou seja, sem origem deve criar-se com a incerteza das imagens idealizadas do eu em que primeiramente apostou. Contra o pensamento clássico, é preciso permanecer na dúvida e no impasse, na duplicidade da identidade e da definição. Se Natanael enlouquece e Véronique padece, é preciso investigar se há um caminho menos espinhoso para este encontro com o dilaceramento humano.

Josiane Orvatich