O dedão do pé do menino-almofada

Num pulo ele pegou o filho no colo. Um filho-almofada, todo de algodão. Três anos de bracinhos e perninhas bem moles, sem ossos, puro afeto nas articulações. Ajeitou o garoto no meio das pernas como quem ajeita a si mesmo.

Eram pele da mesma pele, pois não tinham sangue, eram varões de tecido. O menino rindo e babando com o dedão do pé na boca, a esperar que um dia tenha a barba do pai.

Era uma cena ancestral de quem se criou em grama, longe do cimento da civilização. Era uma cena ancestral de quem se criou em poesia, longe dos romances de sala de estar.

Eram o colo que meu pai teve medo de me dar, cego de amor, enaltecendo os princípios da boa postura e das boas maneiras. Não se pendure assim, menina. Eram o tecido mole que minhas fibras nunca conheceram, cegas de amor, enaltecendo a recusa como forma polida de ser.

Não eram a civilização com medo de amar. Eram a saliva que nos falta.

 

Josiane Orvatich