O garoto e as formigas

As formigas eram cor de ferrugem e aparentavam cerca de três assustadores centímetros. Eram mais de uma dúzia invadindo o chão do quarto quando entrei. Na ponta dos dedos, chinelos desencaixando, desviei de cada uma antes que subissem pela minha perna, sem ver a aranha que devorava duas num canto de rodapé. A seguir apareceu uma de dobro de tamanho, com ares de rainha em busca de suas filhas. Eu adivinhava seus órgãos escuros por baixo da casca laranja quase transparente. Casca porque aquilo não combinava com pele. Era uma carapaça expulsando os afetos desnecessários quando se luta pela sobrevivência. Logo surgiu uma outra a carregar o que parecia ser um pedaço de miolo molhado de pão branco na boca. Andava desnorteada, sem rumo. Era um amontoado de formigas doceiras, a andar com pressa alucinada, em busca da comida de ontem. Tão coletivas, mas nunca catam piolhos umas das outras, distantes dos macacos de pelagem marrom-dourada, aparentados somente na cor. Elas andam no teto, me pergunta o garoto que chega com medo de levar uma picada, subindo no meu colo e começando uma canção de palavras inventadas. Em poucos minutos estamos em silêncio, só o barulho da respiração e da chuva que começa lá fora. Três formigas ainda nos circulam e o tempo se petrifica, agarrados que estamos, pescoço com pescoço, agradecidos pelo falso temor que nos une.

Texto e foto: Josiane Orvatich