Uma narrativa do corpo

Marquês de Sade e a intimidade exterior de Justine

Marquês de Sade, polêmico escritor e filósofo do século XVIII, cuja temática da sexualidade e da violência pareciam ferir os princípios racionalistas do Século das Luzes, dedica-se a duas personagens, as irmãs Justine e Juliette, em mais de um livro. Juliette já foi título da Revista de Cinema que editei, entre 2008 e 2012. Hoje, gostaria de escrever sobre Justine, a protagonista sadeana que Octavio Paz considerou desprovida de sentimentos por incapacidade poética do Marquês.

O escritor mexicano observa que, ao longo da narrativa, conhecemos as crueldades cometidas pelos libertinos no corpo de Justine, mas que permanecemos incapazes de compreender ou acessar suas sensações. Na contramão de Paz, eu considero que o corpo da heroína é já o acontecimento de sua intimidade. Não se trata, portanto, de um silêncio das emoções, mas de uma narrativa do corpo. O corpo exposto coincidirá com o corpo narrado.

A imagem do Marquês no filme Contos proibidos do Marquês de Sade, quando lhe vetam papel e tinta e ele decide escrever em si mesmo, com sangue, nos remete a esse corpo-palavra, corpo-imediato.

No romance Os infortúnios da virtude, Sade nos apresenta Justine como uma garota ingênua de doze anos, com grandes e curiosos olhos azuis, pele radiante, dentes de marfim, voz melodiosa e belos cabelos loiros, cuja fisionomia possuía traços de pudor, timidez, delicadeza e cujo caráter era melancólico, triste e terno. Seu pai é um rico comerciante que foge logo após a falência, levando sua mãe à morte, por desgosto. A heroína e sua irmã Juliette são, então, expulsas do refinado convento onde recebiam primorosa educação.

Se Juliette, aos quinze anos, fica bastante satisfeita com a nova situação e perspectiva de liberdade, escolhendo o caminho do crime e da prostituição, Justine, horrorizada, afasta-se da irmã com o intuito de permanecer fiel à educação virtuosa que vinha recebendo. A partir desse momento, seu percurso se escreverá como um destino no corpo, seguindo em um crescente gradativo de sofrimentos e desventuras.

 

Contos proibidos do Marquês de Sade. Foto: Reprodução.

 

As primeiras cenas da narrativa retratam um corpo ainda não tocado fisicamente, mas já nomeado e evocado. Justine é ameaçada com uma faca de caça em seu peito e sua virgindade é sugerida como moeda de troca. Nos próximos episódios, seu corpo passa a ser manipulado e ferido por libertinos. As imagens violentas são desconfortáveis e propositalmente contrastadas pela ironia sagaz de Sade em relação ao estereótipo inocente e crédulo da personagem. Justine é despida, chicoteada, marcada com ferro, estuprada, acorrentada e se autodescreve como vítima de animais ferozes.

 

“Não se trata, portanto, de um silêncio das emoções,
mas de uma narrativa do corpo.
O corpo exposto coincidirá com o corpo narrado.”

 

Numa imagem que se repete, a do corpo nu, podemos observar o ideal da nudez como expressão da verdade, típica da modernidade. Marshall Berman, em Tudo que é sólido se desmancha no ar, contrasta a simbologia da roupa como representação do aspecto ilusório da vida humana com o ato libertário de se tirar as vestes. A ideia iluminista do homem nu mais livre, que retorna à Natureza e se despe das máscaras da civilização, revela a dialética do nu e do vestido. Lacan, no Seminário 20, situa o amor ao lado do vestido, não da nudez: o hábito faz o monge. O hábito ama o monge. Amor é artifício?

Em Rei Lear, peça de William Shakespeare, o rei está abandonado à tempestade no meio da noite quando se encontra com um homem nu que vagueia delirante e lhe diz: “Estarias melhor na sepultura do que expondo teu corpo nu a tais extremos do céu. O homem é apenas isto?” Numa atitude de proximidade a outro ser humano, o rei se põe também nu, considerando que as roupas nos adulteram: “O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal como tu, nu e bifurcado… Fora, fora com estes trapos emprestados”. A verdade estaria nua, em oposição aos disfarces imaginários que as roupas representam.

Justine, tal como Edgar e Rei Lear, com seu corpo nu exposto ao extremo nas mãos dos libertinos, está também fora dos limites da civilização. Em Sade, a nudez ganha mais uma camada de interpretação, a da violência selvagem. A Natureza não faz oposição à civilização enquanto lugar purificado, refúgio do homem civil, mas também como terreno feroz e selvagem.

 

“A ideia iluminista do homem nu mais livre,
que retorna à Natureza e se despe das máscaras da civilização,
revela a dialética do nu e do vestido.”

 

Outro estrato de compreensão da nudez vem de Roland Barthes ao dizer que não há striptease em Sade, ou seja, não há erotismo, mise en scéne do encoberto. O corpo não é enigma, é desvendado imediatamente. Porém, o erotismo está presente, como exceção, como na cena em que Justine se aborrece quando uma colega tira as roupas rápido demais: “descarada, despiu-se num instante”. Ou quando um libertino aparece para ela em um roupão folgado, que mal escondia seu corpo nu.

Que seu corpo seja marcado por uma intimidade exterior não significa que não desperte ambiguidades. Há dois momentos significativos. Justine se apaixona por um de seus algozes e recrimina-se por isso, sem poder deter-se. E quando finalmente torna-se livre dos infortúnios, ao reconciliar-se com a irmã, descreve-se como melancólica, como na vida de infância, pois crê que essa felicidade não pode durar. Não pode ou não deseja?

Em Justine, há subjetividade na superfície, intimidade pública, corpo exposto, carne viva. Como escreveu o poeta Paul Valéry, “o mais profundo é a pele”. Ou, poderíamos continuar, o mais profundo é o inconsciente, também superficial, íntimo e exterior.

Josiane Orvatich