O sono

Acordei molhada. O suor frio me gelando embaixo da coberta quente. O lençol ensopado, não me lembro quando um fantasma me perseguiu tão sorrateiro. O sonho, o pesadelo: um texto boiava em conserva dentro de um vidro de tampa xadrez, entre pequenas pimentas e ervas. Tentei ler as frases, mas eram invisíveis. Faltava-me o ar a cada tentativa. Um susto, um espanto. As palavras se perdiam sagradas e contornadas de certo azul. Uma delas parecia começar com i, eu me esforçava, mas as letras dormiam mais profundas que eu, sem acordar da angústia. Era apenas o líquido semitransparente. Água turva, aguarrás. Sêmen. Não decifro sequer se era como o éter dos pedaços humanos em conserva ou vinagre de uma simples abobrinha. Pele ou legume teria mergulhado no líquido inicial do mundo? Eu dormia. O corpo não. O corpo reto, o corpo em poros, o corpo molecular, o corpo com cabelo e unha. O corpo em vigília me lembrava da heresia que me acontecia em noite comum. Um i, um i, um i pequeno que fosse, decifrável, mínimo. Dedo indicador nascendo em terra molhada. Um gérmen. Mas o testemunho do texto inicial seguia mudo, supremo. Calado como os homens de Auschwitz. Nossas narrativas toscas vinham substituir a grande assombração. Letras apagadas por borrachas verdes. Humanidade incendiada. Noite fria. O suor me fazendo viva, o corpo resistindo, vibrando, o sonho forçando a excreção. Nascia o vazio das palavras boiadas como cadáveres num rio. Caligrafia afogada em água corrente. A mesma de lavar alface. A mesma de lavar a alma. O líquido: éter ou vinagre? A palavra dormia com i, eu sei, havia nela um i… O medo me acorda em sobressalto lento. Como o filme que já não podemos assistir, a bunda não se fixa na cadeira. O enredo vagaroso. Levanto com medo de um resfriado, eu ordinária, depois de sonhar com o pote sagrado me preocupo com o resfriado. Caminho no escuro até o banheiro. Não acredito no sonho. Vivi sozinha dentro de um grande tanque de éter na noite fria. Chorei cada pedaço perdido de mim. Mas chorei em seco, só cabeça mecânica pulando em soluço, pois não ousei competir com o líquido primordial dentro do vidro de conserva. Líquido ordinário, arroz feijão e mistura. Nosso caldo de pequena humanidade. A letra, nosso véu contra a barbárie. Seda contra tiro quente de revólver. Quem duvida de sua impotência? Quem é esse que ainda narra? A letra, feito toalha rasgada pelo uso do banho. Água turva, aguarrás. Nosso véu contra a barbárie. Nosso resto. Unha, cabelo, ácaros na pele. Nosso resto: unha e cabelo. Ácaros na pele. Saliva, obturação, remela. Não sabia se o barulho do ronco era de um homem, de uma zebra ou de um leão. Fiquei imaginando um tigre deslizando na floresta. Sua musculatura. Músculo, musculatura. Tendões. Gordura. E então me veio o que não queria, a imagem do vidro se quebrando. Créque, pléche, crash, zim.

 

Josiane Orvatich

 

Imagem: Recorte de “Distorção 57”, André Kertész